VALOR ECONÔMICO (SP) • COLUNAS • 26/8/2009
Alexandre Espírito Santo - Ainda é cedo para festas
Apesar da recuperação econômica, 2010 pode surpreender negativamente, assim como 2009 vem surpreendendo para melhorRecentemente, assisti interessante reportagem, num jornal de televisão, mostrando o retorno das festas glamourosas à Wall Street. No final de 2008, muitos analistas (incluo-me no rol) previam que o ano que se avizinhava seria muito ruim para a economia global e para os mercados financeiros. Na época, as perspectivas eram pouco alvissareiras e, na melhor das hipóteses, a recessão se prolongaria por dois anos. Passados dois terços de 2009, que avaliação é possível fazer e, mais ainda, o que 2010 nos reserva?Ninguém duvida que a situação atual é seriíssima - o maior imbróglio econômico do pós-guerra. Todavia, as ações coordenadas dos banqueiros centrais (jogando os juros no chão), bem como a dos governos (imprimindo políticas keynesianas expansivas para evitar a débâcle total), conseguiram mitigar os efeitos da crise e já há um certo consenso de que o pior está no retrovisor, daí as comemorações. Mesmo os economistas mais pessimistas já advogam a tese de que há luz no fim do túnel, e não é um trem na contramão. Em nosso país, a situação como um todo surpreendeu positivamente. Apesar de grande parte dos analistas ainda projetar queda de PIB para o ano, vou contra a corrente majoritária e aposto em pequeno crescimento, de 0,4%. Os movimentos que o governo promoveu de redução de impostos (automóveis e linha branca) e ampliação de gastos em projetos de grande potencial multiplicador (setor de construção civil), aliados à queda de 5% na taxa básica Selic e à volta do crédito, estão sendo essenciais para um desempenho diferenciado da economia brasileira, que está com inflação absolutamente controlada e ainda atrai grandes somas de capitais estrangeiros, valorizando nossa bolsa e, sobretudo, o real. Será uma vitória se conseguirmos adentrar 2010 com o PIB crescendo a uma velocidade de 4%, bem diferente dos passos de cágado das economias europeias, dos EUA e do Japão. Mas o que pode vir pela frente?Temo por 2010, pela situação em nosso país! Pode parecer incoerente já que os sinais são de evidente melhora. Então quais seriam os motivos para esse receio?Ano que vem será um ano politicamente complicado. Envolve uma eleição presidencial nitidamente aberta, sem favoritos. Os dois principais nomes que encabeçam a lista de apostas, Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), oferecem incertezas sobre a condução da economia. Esse sentimento se agrava, se adentrarem ao certame Ciro Gomes, Marina Silva e Heloísa Helena. A elevação da temperatura no Senado, em agosto, já antecipou que o embate político será ferrenho. Num quadro assim, não é desprezível a possibilidade que a taxa de câmbio incorpore algum prêmio de risco.Divagando sobre o câmbio, não é só a briga pela Presidência que pode vir a ser fonte de preocupação. Tomando como base as projeções da OCDE para o crescimento brasileiro de 2010 (4%) e global (1%), há uma chance de apresentarmos um desconfortável déficit em conta corrente de U$ 35 bilhões (importações crescendo a taxas superiores às exportações e muitas pressões na conta de serviços), que teria de ser financiado com ingressos de capitais. Todavia, se o risco interno aumentar, poderemos nos defrontar com um quadro de maior aversão por parte dos estrangeiros, o que nos levaria alternativamente ao uso de reservas internacionais para cobrir o déficit no balanço de pagamentos. Tal situação de maior desconforto nas contas externas seria um ingrediente a mais para pressionar a taxa de câmbio.Não se pode esquecer também que, em março, Henrique Meirelles deixará o Banco Central para concorrer ao governo de Goiás. Deve-se à sua capacidade técnica grande parte do bom desempenho da nossa economia, inclusive agora na crise; sua saída não será trivial! Há, entretanto, um ponto de maior preocupação, um grande motivo para estresse ano que vem: o descontrole fiscal. O quadro das contas públicas se deteriorou sobremaneira em 2009! Como bem pontuaram Pastore & Pinotti em artigo no Valor, "há um estímulo fiscal superior a 2% do PIB". Além da perda de arrecadação, os gastos correntes saltaram a níveis preocupantes. São gastos em que os custos são maiores que os benefícios gerados e não retrocederão. Mesmo sem descontrole, a relação dívida/PIB voltou a mover-se para pior. Como o impacto dessa "farra fiscal" será crescimento menor no futuro (não condizente com um governo que se inicia), os mercados provavelmente anteciparão um arrocho de contas para 2011, para restaurar o superávit de outrora. Isso se constituiria em outro fator de inquietação (social e econômica), visto que este governo "entorpeceu" a sociedade com sua gastança. Como alguns setores importantes ver-se-ão sem ela?Por fim, mas não menos importante, vem o caso da economia global. Em meu cenário de referência, as economias desenvolvidas saem da recessão no final do 1º semestre e seus bancos centrais, a despeito das deflações, buscarão drenar liquidez, com o fim do "quantative easing" ou mesmo praticando taxas de juros maiores, provavelmente no último trimestre. Os impactos de políticas monetárias mais restritivas e Tesouros menos perdulários trarão consequências importantes sobre os preços dos ativos. Sem mencionar a muito provável reforma do sistema financeiro americano, que se faz necessária. Novos estouros de bolhas poderão ocorrer, o que será péssimo e poderá trazer desconforto em nossos próprios mercados, devido a sua grande participação nos portfólios globais.Resumindo, o pior já passou, mas o futuro não me parece róseo. A crise não completou nem um ano para que os operadores de bolsas soltem rojões! Não há garantias de que a economia mundial voltará a crescer os 5% de antes para manter os lucros das empresas nos píncaros. Lembremo-nos que boa parte dos lucros de agora são frutos de reduções de folha salarial e custos, que não se perpetuarão. A despeito da recuperação econômica, 2010 pode surpreender negativamente, assim como 2009 vem surpreendendo para melhor. A ciência econômica é complexa justamente por que nem sempre o mais provável é o que efetivamente ocorre.Alexandre Espírito Santo é diretor do curso de graduação de RI da ESPM-RJ e economista-chefe da Way Investimentos.
26 de ago. de 2009
25 de ago. de 2009
Mercosul divide opiniões
O Mercado Comum do Sul, bloco econômico formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, não atingiu os objetivos esperados na época de sua formação, afirmou o ex-ministro da Fazenda e da Economia do Uruguai, Ignacio de Posadas Montero, que participou ontem de debate na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). Posadas disse ainda que a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), zona de livre comércio continental proposta pelo Brasil, está sendo mal utilizada e não dará certo.
“O Mercosul fracassou. Como ele está hoje, não serve aos interesses de nenhum dos países membros. O bloco não serviu para a abertura dos mercados. Também não funciona para o que o Brasil queria, que era um veículo para negociar com o mundo. Ninguém quer negociar com quem não cumpre as regras. Acredito que o Brasil vai tentar reformular o Mercosul e, de fato, o país é o único que tem capacidade para fazê-lo”, comentou.
Segundo Posadas, na avaliação de autoridades uruguaias, o continente depende de uma ação de liderança para superar suas dificuldades e caberia ao Brasil tomar a dianteira. “A América do Sul vive momento complexo, com fatos negativos perigosos. Para o Uruguai, e esta deveria ser a mentalidade também para a Argentina, interessa saber qual vai ser a direção da política exterior
brasileira. Os problemas que existem hoje exigem uma política exterior brasileira eficiente se possível, coordenada com os Estados Unidos.”
O ex-ministro da Economia e presidente do Conselho Empresarial de Políticas Econômicas da ACRJ, embaixador Marcílio Marques Moreira, classificou o Mercosul como decadente, mas apontou vitórias no acordo comercial que uniu os países do Cone Sul. “O Mercosul está decadente, mas mesmo se desaparecer vai deixar legado. O bloco era uma porta de abertura ao mundo para estas economias que estavam crescendo nas décadas de 1980 e 1990. Além disso, foi uma forma inteligente de usar a geografia para criar novo clima de entendimento. Uma das maiores vitórias do Mercosul foi a desnuclearização da América do Sul. Na época, Brasil e
Argentina buscavam arma nuclear, mas agora a América do Sul é uma zona de paz.”
Para Marcílio, mais importante do que analisar o sucesso das iniciativas para desenvolver as economias no continente é saber como os países sulamericanos sairão da crise internacional. “A grande questão é saber para onde vai a América do Sul. Tudo indica que a América Latina, em especial a América do Sul e o Brasil, está saindo da crise, terminando sua fase mais aguda de pânico. Brasil, Chile e Colômbia, inclusive, já podem estar em processo de expansão de suas economias”, disse.
“O Mercosul fracassou. Como ele está hoje, não serve aos interesses de nenhum dos países membros. O bloco não serviu para a abertura dos mercados. Também não funciona para o que o Brasil queria, que era um veículo para negociar com o mundo. Ninguém quer negociar com quem não cumpre as regras. Acredito que o Brasil vai tentar reformular o Mercosul e, de fato, o país é o único que tem capacidade para fazê-lo”, comentou.
Segundo Posadas, na avaliação de autoridades uruguaias, o continente depende de uma ação de liderança para superar suas dificuldades e caberia ao Brasil tomar a dianteira. “A América do Sul vive momento complexo, com fatos negativos perigosos. Para o Uruguai, e esta deveria ser a mentalidade também para a Argentina, interessa saber qual vai ser a direção da política exterior
brasileira. Os problemas que existem hoje exigem uma política exterior brasileira eficiente se possível, coordenada com os Estados Unidos.”
O ex-ministro da Economia e presidente do Conselho Empresarial de Políticas Econômicas da ACRJ, embaixador Marcílio Marques Moreira, classificou o Mercosul como decadente, mas apontou vitórias no acordo comercial que uniu os países do Cone Sul. “O Mercosul está decadente, mas mesmo se desaparecer vai deixar legado. O bloco era uma porta de abertura ao mundo para estas economias que estavam crescendo nas décadas de 1980 e 1990. Além disso, foi uma forma inteligente de usar a geografia para criar novo clima de entendimento. Uma das maiores vitórias do Mercosul foi a desnuclearização da América do Sul. Na época, Brasil e
Argentina buscavam arma nuclear, mas agora a América do Sul é uma zona de paz.”
Para Marcílio, mais importante do que analisar o sucesso das iniciativas para desenvolver as economias no continente é saber como os países sulamericanos sairão da crise internacional. “A grande questão é saber para onde vai a América do Sul. Tudo indica que a América Latina, em especial a América do Sul e o Brasil, está saindo da crise, terminando sua fase mais aguda de pânico. Brasil, Chile e Colômbia, inclusive, já podem estar em processo de expansão de suas economias”, disse.
autor: Daniel Cùrio
artigo publicado no "Jornal do Commercio" em 20 de Agosto de 2009.
integração nas Américas: necessária, possível ou difícil ?
que condições tornam possível ou impossível os processos de integração no continente ?
que condições atuam e quais estão ausentes para a construção do processo integrativo ?
quais os estímulos e os obstáculos, quais as forças que apóiam e quais se opõem à integração ?
qual o peso da economia real, dos mercados, das infraestruturas ?
qual o papel dos governos, das burocracias, da diplomacia, qual o papel das instituições ?
qual o papel da sociedade civil, dos povos, da cultura ?
essas são algumas questões com que nos defrontamos para construir cenários que tratem do processo de construção da integração regional nas Américas hoje e, organizar e praticar os discursos que procuram dar sentido à análise é nosso objetivo neste espaço.
que condições atuam e quais estão ausentes para a construção do processo integrativo ?
quais os estímulos e os obstáculos, quais as forças que apóiam e quais se opõem à integração ?
qual o peso da economia real, dos mercados, das infraestruturas ?
qual o papel dos governos, das burocracias, da diplomacia, qual o papel das instituições ?
qual o papel da sociedade civil, dos povos, da cultura ?
essas são algumas questões com que nos defrontamos para construir cenários que tratem do processo de construção da integração regional nas Américas hoje e, organizar e praticar os discursos que procuram dar sentido à análise é nosso objetivo neste espaço.
la idea de este espacio
este espacio es dedicado a la reflexión y discusión de los procesos de integración y cooperación en las Américas, buscando asi compartir nuestra visión de mundo sobre las relaciones internacionales.
a idéia deste espaço
este é um espaço de observação e discussão, que pretende compartilhar nossa visão de mundo
sobre a realidade internacional contemporânea, com especial atenção para os processos de integração e cooperação nas Américas.
sobre a realidade internacional contemporânea, com especial atenção para os processos de integração e cooperação nas Américas.
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