VALOR ECONÔMICO (SP) • 9/6/2010
Palavra do gestor: Alexandre Espírito Santo
Existe um famoso ditado americano, que inclusive virou música: "Save the best for last". Penso que todos hão de se lembrar quando, no início do seu governo, o presidente Lula prometeu à sociedade o "espetáculo do crescimento". Enfim, no seu último ano, do segundo mandato, a promessa deverá ser concretizada, já que deveremos crescer mais do que 6% em 2010. Aí está, ao pé da letra, "guardar o melhor pro final".Tenho lido muitos economistas afirmando que o mais sério problema do Brasil é seu baixo PIB potencial. O que seria isso? A quantidade de riqueza que um país pode produzir durante um período de tempo, utilizando todos os fatores de produção disponíveis (terra, capital, trabalho e empreendedorismo). Em outras palavras, uma situação em que não exista desemprego, a não ser aquele natural da economia. Por definição, se um país está trabalhando próximo desse patamar, não deveremos observar pressões inflacionárias importantes, o que é o ideal.Mensurar o PIB potencial não é tarefa trivial. Faz-se isso por meio de modelos econométricos, que envolvem dados passados, além de algumas inferências. Como todo economista (eu sou um deles) tem a presunção de ter uma estimativa para tudo, o "meu" PIB potencial é da ordem de 5,0%.Semana passada o governo divulgou uma estatística pouco animadora: somente 46% do PAC saíram do papel, desde 2007. Aqui temos um problema: a falta de investimentos em infraestrutura impede o crescimento do nosso PIB potencial. Portanto, quando o país começa a crescer numa velocidade mais forte do que a usual logo aparecem os primeiros sinais de inflação, via aquecimento da demanda agregada, que entra em descompasso com a oferta. Como o modelo econômico do nosso país é calcado em sistema de metas de inflação, o Banco Central rapidamente responde a esse descompasso com uma política monetária mais austera, subindo a Selic. A alta dos juros, por efeito colateral, aborta o processo de crescimento ora em curso, o que nos leva ao "stop and go" ou, como costumo dizer aos meus alunos, ao "voo de galinha".O PAC, quando idealizado pelo governo Lula, tinha por objetivo não somente fazer o país crescer com suas obras. Em minha visão, liam-se, nas entrelinhas, formas de se criarem condições para o aumento do PIB potencial. Ou seja, os investimentos em infraestrutura, como portos, aeroportos, energias, estradas etc... evitariam os "apagões" que sempre ocorrem nos momentos de maior empuxo da economia.O ponto desse artigo não é a promessa presidencial, mas sim se teremos condições de manter essa taxa de crescimento nos próximos anos, ou seja, se viraremos um pássaro e decolaremos definitivamente para um lugar de destaque no cenário econômico mundial. Não podemos desperdiçar essa oportunidade. O Brasil é grau de investimento em virtude de políticas macroeconômicas muito sérias adotadas nos últimos anos. Também nossas empresas estão mudando paradigmas, se internacionalizando e ganhando espaço em setores além do tradicional agronegócio. Em minha análise, é condição sine qua non redimensionar o tamanho do Estado brasileiro e torná-lo mais eficaz e maduro. Peço licença para discordar do presidente, mas prefiro um Estado indutor de investimentos e não um Estado empresário, que suga da sociedade impostos exorbitantes para financiá-lo. Creio que o caminho é reduzir gastos correntes, conter aumentos salariais muito acima da inflação, ter vontade política de promover reformas, como a tributária, da previdência e a trabalhista. São tarefas hercúleas que ficarão para o próximo mandatário. Só assim criar-se-ão condições para a redução consistente dos juros, pavimentando o ciclo virtuoso. Continuo acreditando que o cenário global deve se deteriorar novamente. A situação na Europa é crítica e a recuperação americana é frágil, vide as estatísticas recentes nada alvissareiras do mercado de trabalho. O que vem ocorrendo nos Estados Unidos, mal comparando, lembra a trajetória japonesa recente. Assim sendo, a nós caberá perseverar, agir com firmeza e defenestrar privilégios. Caso contrário, permaneceremos ciscando, contentando-nos com espasmos de crescimento.
Alexandre Espírito Santo é economista da Way Investimentos e diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJE-mail: aesanto@wayinvestimentos. com.br
9 de jun. de 2010
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