29 de abr. de 2010

O Poder Americano?

João Gabriel C. Maia, Lívia S. Honorato de Moraes,
Luiz Eduardo Abreu S. Mendes
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No início do século XXI, de acordo com J. L. Fiori, o poder militar e econômico dos EUA é incontrastável. Certo é que eles saíram da Guerra Fria na condição de uma “hiperpotência”, cujo objetivo de desarticular a potência rival, a URSS, foi alcançado. Após a dissolução da URSS, a questão de haver uma e só uma potência hegemônica voltou para a pauta das Relações Internacionais. Durante o século XX, muitos autores afirmaram que esta concentração de poder global, num só Estado, seria a condição primordial para se alcançar uma paz mundial duradoura e uma economia internacional estável.
Foi nesse contexto que a “Teoria da Estabilidade Hegemônica” desenvolvida por Charles Kindelberger e Robert Gilpin floresceu no início da década de 1970. Kindelberger e Gilpin estavam preocupados com a possibilidade de que se repetisse a Grande Depressão, ou Crise de 29, um período de grande crise econômica e recessão que abalou fortemente os EUA e todos os países que mantinham níveis consideráveis de transações comerciais com ele. A idéia de que se houvesse um Estado nacional que concentrasse poder, tal como o fizera a Inglaterra do século XIX, o equilíbrio sistêmico poderia ser mantido surgiu para construir uma alternativa ao fim da bipolaridade sistêmica.
A idéia dos realistas está assentada na necessidade de um país assumir a responsabilidade para fornecer alguns “bens públicos” essenciais para o bom andamento do sistema mundial, o que é o caso da moeda padrão internacional, do livre-comércio e da coordenação das políticas econômicas. Essa foi a experiência que o mundo viveu no século XIX e que parecia que iria se repetir no limiar dos séculos XX e XXI.
Os marxistas partem desse conceito e da história do “Sistema Mundial Moderno”, criado na Europa, no século XVI, para afirmar que a competição entre os Estados nacionais europeus só não levou ao caos, político e econômico, por conta de existir um comando nos últimos 500 anos, coligado e alternado de três grandes potências hegemônicas, capazes de organizar ou ‘governar' o funcionamento hierárquico do Sistema Mundial. Fiori argumenta que, se esta teoria é verdadeira, como é possível explicar que os anos 1990 tenham sido marcados por sucessivas instabilidades em diversos mercados, baixo crescimento e baixo desenvolvimento.
Se os EUA estavam próximos de repetir o papel que a Inglaterra exercera no século XIX, logo na condição de país hegemônico deveria trazer o equilíbrio ao sistema, e não desigualdades e instabilidade a ele. De acordo com Fiori, vimos o que ele denomina de o “paradoxo do hiperpoder”, pois o país hegemônico tem provocado as crises sistêmicas, ao invés de detê-las. Mesmo em relação à invasão pelos EUA ao Iraque e ao Afeganistão, Fiori afirma que a potência hegemônica consegue se explicitar e no campo da guerra agir como tal, mas, ao mesmo tempo, os EUA não conseguem assumir o status de estabilizador e sim o de perturbador do Sistema Mundial.
Em seus argumentos, Gilpin ainda pondera que há a necessidade de os EUA reforçarem sua característica militar e exercerem o controle mundial, permanecendo atento em relação às possíveis rivalidades entre russos e europeus. Além disso, os EUA não podem deixar de considerar em seus planos políticos a “ameaça chinesa” ao Japão e a necessidade de a China se expandir na Ásia. Na visão de Gilpin, a viabilidade do poder global estadunidense está ligada à capacidade do mundo ter uma economia mundial totalmente global, sem fronteiras, para que os mercados possam efetuar seu livre desenvolvimento, sem a interferência de Estados nacionais que prejudiquem a liberdade das transações comerciais e financeiras, vistas, como essenciais para o sucesso do Sistema Mundial atual.
Para o autor, a ameaça a essa condição que garantiria a “estabilidade hegemônica” viria, justamente, dos blocos comerciais e/ou políticos que se formaram concomitantemente à expansão dos EUA. Este seria o caso do Mercosul e da União Européia, por exemplo, que poderiam excluir os países fora do bloco das negociações econômicas e, conseqüentemente, do acesso a determinadas mercadorias. Contrapondo-se a Gilpin, Fiori argumenta que os fatos históricos dos dias de hoje têm demonstrado totalmente o seu oposto, isto é, os próprios EUA desestabilizando a ordem mundial, ao invés de protegê-la e mantê-la. A díade estabilidade - instabilidade resulta da construção deliberada do processo competitivo e conflituoso, por essência, entre a centralização do poder e o movimento simultâneo de acumulação de riqueza, pois é mediante tal modelo que a “vontade imperial” adquire as condições necessárias para se expandir.
Os EUA constroem as regras do jogo, ou seja, o “Jogo das Guerras” de acordo com suas estratégias geopolíticas, na medida em que contribuirão para o aumento de seu poder global. Assim como nos séculos passados o nascimento e robustecimento dos mercados nacionais não foram conseqüência do desenvolvimento autônomo e endógeno das economias de uns poucos Estados nacionais, mas sim fruto da vontade política, até mesmo arbitral, para o estabelecimento e unificação das políticas econômicas nacionais, hoje, no tabuleiro internacional o movimento não é muito diferente. A construção do mercado global se dá mediante o “jogo das trocas”, e proporcionará maior acumulação de riqueza àqueles que estiverem do lado norte-americano, logo, independente da competição, esse jogo jogado com as regras dos EUA proporciona a este país ter maior influência no cenário internacional.
O fato principal é que muitos autores não analisam a parte negativa de uma estabilidade mundial gerada a partir de uma liderança hegemônica, apenas os pontos positivos da sua incessante busca de expansão e poder, ignorando assim fatos como a capacidade que ele possui de gerar novas guerras. Por isso, segundo Fiori, é que essas teorias não conseguem responder ao paradoxo que é causado por essas relações conflituosas do processo de expansão do poder dos Estados e a crise do sistema que é ampliada pelo líder.
Em ‘’O Poder Americano’’, Fiori diz: “Neste sentido, se pode concluir com toda segurança que os conceitos de ‘’liderança’’ ou ‘’hegemonia internacional’’ ajudam a compreender a estabilização e o funcionamento ‘’normal’’ do Sistema Mundial, mas não dão conta das suas contradições e do desenvolvimento tendencial dos seus conflitos que existem e se mantém ativos, mesmo nos momentos de maior legitimidade e paz hegemônica.” (FIORI, J. L., 2004)

Referências Bibliográficas:
FIORI, J. L. - “Formação, Expansão e Limites do Poder Global”, in O Poder Americano, Edit. Vozes, 2004, Petrópolis.
HERRERO, R – Os EUA ainda são os lideres do mundo? – Disponível em http://www.rabisco.com.br/colunas/caderno0/caderno034.htm - Acesso em 20/04/2010.
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Trabalho para a disciplina RI5E do curso de Relações Internacionais da ESPM-Rio – Profª. Gloria Moraes.